Fed mantém juros dos EUA na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano em meio à guerra no Oriente Médio
Foto de arquivo: O presidente dos EUA, Donald Trump, observa Jerome Powell, seu indicado para presidir o Federal Reserve (Fed), durante discurso na Casa Branca,...
Foto de arquivo: O presidente dos EUA, Donald Trump, observa Jerome Powell, seu indicado para presidir o Federal Reserve (Fed), durante discurso na Casa Branca, em Washington, EUA, em 2 de novembro de 2017. REUTERS/Carlos Barria/Foto de arquivo O Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, manteve a taxa de juros do país inalterada na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano — menor nível desde setembro de 2022. A decisão, anunciada nesta quarta-feira (18), veio em linha com a expectativa do mercado financeiro. Foi a segunda reunião consecutiva em que o banco central americano manteve a taxa no mesmo nível. Em 28 de janeiro, o Fed interrompeu um ciclo de três cortes seguidos, citando incertezas nas perspectivas econômicas. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça A guerra no Oriente Médio e a consequente disparada do preço do petróleo no mercado global tiveram grande destaque na decisão desta quarta-feira. A principal preocupação do banco central americano é o impacto sobre a inflação no país. (leia mais abaixo) Em entrevista a jornalistas após a decisão, o presidente do Fed, Jerome Powell, reiterou que a alta dos preços de energia deve pressionar a inflação no curto prazo. "Ainda é cedo, no entanto, para saber a dimensão e a duração dos possíveis efeitos sobre a economia", disse. Veja os vídeos em alta no g1: Veja os vídeos que estão em alta no g1 Ele acrescentou que a política monetária está “bem posicionada para determinar a extensão e o momento de novos ajustes na taxa de juros, com base nos dados recebidos, nas perspectivas em evolução e no balanço de riscos”. Apesar do cenário incerto, autoridades do Fed mantiveram a previsão de um corte de 0,25 ponto percentual em 2026. Dos 19 membros do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês), 12 projetam ao menos uma redução, enquanto sete preveem a taxa no nível atual. ➡️ A política de juros nos EUA tem reflexos no Brasil. Com as taxas em nível historicamente elevado, cresce a pressão para que a Selic, taxa básica de juros brasileira, permaneça em patamar alto por mais tempo, além de gerar efeitos sobre o câmbio. (leia mais abaixo) A decisão desta quarta-feira foi a décima desde que Donald Trump assumiu como 47º presidente dos EUA, em 20 de janeiro de 2025. Desde a posse, houve três cortes de juros, em meio a um cenário econômico incerto, com conflitos geopolíticos e a guerra tarifária promovida pelo republicano. O que disse o Fomc O Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) informou, em comunicado, que a atividade econômica dos EUA tem se expandido em um ritmo sólido, enquanto a criação de empregos permaneceu baixa e a taxa de desemprego mudou pouco nos últimos meses. O colegiado destacou que a inflação continua "um pouco elevada" e citou incertezas em relação à economia, em meio à guerra entre os EUA e Israel contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro. "A incerteza sobre a perspectiva econômica continua elevada. As implicações dos acontecimentos no Oriente Médio para a economia dos EUA são incertas", diz o texto. O Fomc afirmou ainda que "continuará monitorando as implicações das informações recebidas para a perspectiva econômica" e que está "preparado para ajustar a postura da política monetária, conforme apropriado, caso surjam riscos que possam dificultar o alcance de seus objetivos". Impactos da guerra no Oriente Médio Com o início da guerra, em 28 de fevereiro, o petróleo disparou no mercado internacional e chegou a atingir US$ 120, o maior valor desde 2022. Depois, recuou, mas segue na casa dos US$ 100, ainda em nível bastante elevado. Trump passou, então, a buscar formas de conter a alta da commodity, atento ao impacto no bolso dos eleitores americanos e às eleições legislativas de meio de mandato, marcadas para novembro. (leia mais) Petróleo mais caro costuma significar gasolina e diesel mais caros — e, em efeito cascata, pressões sobre os preços de diversos produtos nos EUA. O cenário preocupa, em especial, o Fed, que tem mandato duplo: controlar a inflação e manter o mercado de trabalho aquecido. "O Comitê está fortemente comprometido em apoiar o máximo emprego e em trazer a inflação de volta ao objetivo de 2%", declarou o Fomc nesta quarta-feira. Atualmente, a taxa está em 2,4% no acumulado em 12 meses. Dados da associação automobilística AAA mostram que o preço da gasolina já subiu quase 25% desde que o republicano iniciou a guerra, atingindo o maior valor desde outubro de 2023. 🚢 O fator central da disparada dos preços é o bloqueio do Estreito de Ormuz, principal rota global do petróleo, por onde passa cerca de 20% do consumo mundial. A região — responsável também por cerca de um quinto do comércio global de gás natural (GNL) — registrou forte queda no tráfego de navios após o Irã anunciar o bloqueio e ataques a petroleiros. O fluxo da commodity na região passou a preocupar Trump, que pediu apoio de outros países para monitorar e "cuidar" da passagem — solicitação rejeitada por seus aliados europeus e asiáticos. Trump reagiu à negativa dizendo que não precisa da ajuda “de ninguém” para seguir na guerra contra o Irã e controlar Ormuz. “Nós não precisamos deles [países da Otan, aliança militar liderada pelos EUA], mas eles deveriam ter ajudado. Estão cometendo um erro muito tolo." Ele também declarou que "não demorará muito" para a liberação da rota do petróleo, em um cenário que permanece incerto. Pressão sobre o Fed Enquanto isso, a pressão do presidente dos EUA por cortes de juros continua. Nesta semana, ele afirmou que o Fed deveria realizar uma “reunião especial” para reduzir as taxas “imediatamente”. A declaração foi feita poucos dias depois de um juiz federal americano bloquear, na última sexta-feira (13), intimações contra Jerome Powell, no âmbito de uma disputa judicial relacionada à sua atuação à frente do Fed. Trump é um crítico recorrente de Powell, cujo mandato se encerra em maio. Esta deve ser a penúltima decisão de juros do Fed sob seu comando. Para substituí-lo, o republicano indicou o economista Kevin Warsh, considerado por Trump o nome ideal para conduzir cortes nas próximas reuniões. A nomeação ainda precisa ser aprovada pelo Senado e, se confirmada, Warsh pode já presidir a decisão de junho. Busca por cadeiras No segundo semestre de 2025, Trump intensificou as críticas ao Federal Reserve e passou a se dedicar à indicação de nomes alinhados à sua agenda econômica para a diretoria da instituição. Em setembro, o republicano nomeou Stephen Miran para substituir Adriana Kugler, diretora que antecipou sua saída e deixou o cargo em agosto. Enquanto isso, a Suprema Corte ainda analisa a tentativa do republicano de demitir Lisa Cook do cargo de diretora do Fed, em uma decisão que pode ser anunciada nas próximas semanas. Caso a Justiça confirme a demissão de Lisa Cook, Trump terá garantido ao menos duas indicações para a diretoria do Fed , além do presidente da instituição. Em meio às movimentações no Fed, caso Trump alcance maioria de aliados no conselho da instituição — que tem sete membros —, ele terá maior influência sobre a aprovação das nomeações nos 12 bancos regionais. Assim, ampliaria sua interferência sobre as decisões de juros. Mais uma vez, a decisão de juros nesta quarta não foi unânime. Além do presidente do Fed, Jerome Powell, e do vice, John C. Williams, nove diretores votaram para manter a taxa inalterada. Apenas Stephen Miran, nomeado por Trump, se posicionou a favor de um corte de 0,25 ponto percentual. Efeito dos juros no Brasil — e nos mercados Os juros, ainda considerados elevados nos EUA, mantêm os rendimentos das Treasuries, os títulos públicos americanos, em níveis mais atraentes. Por serem considerados os investimentos mais seguros do mundo, as Treasuries com rentabilidades elevadas despertam o interesse de investidores estrangeiros, que direcionam recursos aos EUA e fortalecem o dólar. Em outra perspectiva: apesar de diversas variáveis interferirem nessa lógica, o movimento tende a reduzir o volume de investimentos estrangeiros no Brasil, desvalorizando o real em relação à moeda americana. Além disso, o dólar em nível elevado aumenta a pressão sobre a inflação por aqui, com reflexos na manutenção de juros altos pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central do Brasil. Prédio do Federal Reserve dos EUA em Washington, EUA (maio/2020) Kevin Lamarque / Reuters
Fonte da Reprodução:
https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/03/18/fed-juros-eua-marco.ghtml